A iniciativa de Integração das Infra-estruturas Regionais Sul-Americanas (IIRSA)
e o Programa de Aceleração do Crescimento 2007/2010 (PAC) do governo federal
brasileiro—somado com os empreendimentos planejados e executados pelos entes federados que integram
o país (estados e municípios), isoladamente ou em parceria com o setor
privado—se implementados como projetado ao longo dos próximos dez anos, deverão consolidar
e promover mudanças substantivas na forma de ocupação do espaço territorial
brasileiro e sul-americano, particularmente da Amazônia continental, e no uso dos recursos
naturais ai existentes.
As grandes obras (ou projetos de grande escala, PGE) que integram ambas as estratégias
de desenvolvimento são, em verdade, formas de produção vinculadas a um sistema
econômico caracterizado pela produção e reprodução ampliada de capital.
Um sistema orientado pelo paradigma (hegemônico) de integração de todos os povos
e culturas dentro de um sistema capitalista de abrangência mundial. Como observa Carlos Vainer
(2007), "Rios, populações, regiões inteiras são entregues a um punhado
de grandes empresas, nacionais e estrangeiras, do setor mínero-metalúrgico-energético,
em nome de um desenvolvimento cujos custos e benefícios não têm sido adequadamente
medidos, como, muito menos ainda, a forma como eles se distribuem".1
Neste artigo analisaremos o papel protagonista exercido pelo Brasil no contexto da integração
competitiva sul-americana, objetivo visível nas duas iniciativas de integração
das infra-estruturas supracitadas: IIRSA em nível regional e PAC em nível nacional. O
Brasil e as políticas territoriais brasileiras para o subcontinente, por meio de estratégia
adotada no início dos anos 1990 e que tem desdobramentos na sua política externa para
a região, é hoje a grande força motriz do processo de integração
em curso.2
A história oficial da IIRSA
A história oficial da articulação intergovernamental pró IIRSA tem início
em setembro de 2000, em Brasília, numa reunião dos doze presidentes dos Estados nacionais
constituídos na América do Sul.3 Na ocasião
foi identificado e debatido pelos participantes o problema da fragmentação da infra-estrutura
física instalada na região, sendo apontado como principal causa a falta de uma visão
abrangente de América do Sul, enquanto unidade geo-econômica e não como conjunto
de países apartados entre si, o que na prática implicaria num novo ordenamento territorial
da América do Sul.
Como solução para o problema, foi apontada a necessidade da definição
de uma estratégia de trabalho conjunto visando à integração das infra-estruturas
nacionais. Essa estratégia foi denominada iniciativa de Integração das Infra-estruturas
Regionais Sul-Americanas (IIRSA), sendo estruturada com base na idéia de eixos de integração
e desenvolvimento.
Uma segunda reunião aconteceu em julho de 2002, em Guayaquil (Equador), tendo
na pauta o tema da "integração física das infra-estruturas da América
do Sul". Ambas as reuniões foram realizadas no período do segundo mandato do presidente
brasileiro Fernando Henrique Cardoso.
Na terceira reunião, realizada em dezembro de 2004 na cidade de Cuzco (Peru),
já com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no seu primeiro mandato, a IIRSA foi confirmada
como componente importante da estratégia de integração política e econômica
regional, sendo aprovado pelos doze presidentes uma carteira de investimento formada por 31 projetos
de grande escala—conhecidos desde então como projetos-âncora. Considerados
estratégicos para o período 2006-2010, esses projetos foram na ocasião orçados
em 6,4 bilhões de dólares americanos. Também foi estabelecido como prioridade
o aprofundamento da convergência entre o Mercosul, a Comunidade Andina (CAN) e o Chile, visando à construção
de uma "zona de livre comércio" regional mais ampla.
A intenção de incorporar a IIRSA como parte da estratégia de construção
de um espaço sul-americano integrado ficou mais evidente em 30 de setembro de 2005,
na I Reunião de Chefes de Estado da Comunidade Sul-Americana de Nações (CSN/CASA).
Nessa ocasião os doze presidentes se comprometeram a buscar fontes de financiamento que, segundo
o documento oficial, levassem em conta a realidade financeira dos países sul-americanos, preservassem
a capacidade e a autonomia decisória dos Estados, e estimulassem a realização
de investimentos necessários para a implementação dos projetos prioritários
reunidos na Carteira IIRSA. Também reafirmaram a importância da integração
energética da América do Sul e ratificaram os resultados da I Reunião de Ministros
de Energia da Comunidade Sul-americana de Nações, realizada em Caracas, em 26 de
setembro de 2005, onde foi decidido dar prosseguimento à Iniciativa Petroamérica,
com base nos princípios contidos na Declaração da Reunião.4
Por fim, durante a primeira Cúpula Energética Sul-Americana, realizada
em abril de 2007 na Ilha de Margarita (Venezuela), foi criada a União de Nações
Sul-Americanas (UNASUL) em substituição a denominada Comunidade Sul-americana
de Nações (CSN/CASA). Foi definido que a UNASUL contará com uma secretaria
executiva com sede em Quito (Equador), coordenada pelo ex-presidente do Equador senhor Rodrigo Borga,
que terá como objetivo coordenar o processo de cumprimento das decisões tomadas pelos
governos da região sobre os diversos temas relativos à integração sul-americana.
Foi dado início também ao processo de discussões intergovernamental visando à criação
do chamado Banco do Sul, uma entidade financeira regional com recursos próprios, subordinada
aos objetivos e decisões dos países membros.
Também foi criado no âmbito da Cúpula Energética o
denominado Conselho Energético da América do Sul, a ser integrado pelos ministros
de energia dos países. Entre as atribuições do Conselho estão a elaboração
(1) de uma proposta de parâmetros para uma Estratégia Energética Sul-Americana,
(2) de um Plano de Ação e (3) de um Tratado Energético de abrangência regional.
Além da elaboração de referenciais jurídicos e regulatórios para
acordos multilaterais e bilaterais, o Conselho foi concebido para ser a instância institucional
para solução de controvérsias surgidas na região.
Num esforço de formalização, pode-se dizer que a história
da IIRSA está dividida resumidamente em três momentos: o de fundação (2000-2002);
o de planejamento (2003-2004); e o de implementação (2005-2010).
Sobre a pré-história da IIRSA e o protagonismo brasileiro
Como tantos outros projetos de promoção do desenvolvimento, a IIRSA também
tem sua própria pré-história. De fato, o conceito moderno que embasa a
idéia de construir um sistema integrado de logística visando tornar a economia da região
sul-americana mais competitiva no cenário internacional—e atraente para investimentos privados—remonta
ao início dos anos 1990, com a formulação da estratégia de integração
brasileira baseada na idéia de Eixos Nacionais de Integração e Desenvolvimento (ENID).5
Além de fazer parte dos Princípios Fundamentais da Constituição de 1988
da República Federativa do Brasil, Artigo 4º, Parágrafo Único, onde se lê que "A
República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política,
social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma
comunidade latino-americana de nações", os Planos Plurianuais (PPA) do Governo Federal
de 1996-1999 (Brasil em Ação); de 2000-2003 (Avança Brasil);
e de 2004/2007 (Brasil de Todos) incluíram na sua estratégia a integração
da Amazônia ao espaço produtivo brasileiro e a consolidação da política
de integração regional da América do Sul, tendo por base a idéia dos Eixos
Nacionais de Integração e Desenvolvimento.
No PPA 1996-1999, por exemplo, foram definidos cinco eixos de integração nacional
(Eixo de integração norte-sul; Eixo de integração oeste; Eixo de integração
do nordeste; Eixo de integração sudeste e Eixo de integração sul) e dois
de integração continental (Saída para o Pacífico e Saída para o
Caribe). Entre os principais projetos do Brasil em Ação estavam: a recuperação
das estradas BR 364 (Brasília-Acre) e BR 163 (Cuiabá-Santarém); o asfaltamento
da BR 174 (Manaus-Boa Vista); a implementação das hidrovias do Araguaia-Tocantins e do
Madeira; o gasoduto de Urucu e a linha de alta tensão conectando Tucuruí a Altamira e
Itaituba.
No PPA 2000-2003 foram definidos os seguintes eixos: (1) Saída para o Caribe; (2) Hidrovia
Madeira-Amazonas; (3) Costeira Norte; (4) Araguaia-Tocantins; (5) Transnordestina; (6) Oeste; (7) Rio
São Francisco; (8) Centro-Oeste; (9) Hidrovia Paraguai-Paraná; (10) São Paulo;
(11) Costeira Sul; e (12) Franja de Fronteira (RS-Mercosul). O Avança Brasil concentrava
seus investimentos para a Amazônia legal em quatro corredores multimodais de transportes, totalizando
3,5 bilhões de dólares. Mais de 50% eram destinados ao corredor Araguaia-Tocantins, cerca
de 30% para o corredor Sudoeste, 15% para o corredor Oeste-Norte e 5% para o corredor Arco Norte. A
estratégia territorial global para a implantação destas ações visava à incorporação
efetiva da parte mais ocidental da Amazônia ao Sul-Sudeste do país, tomando como eixos
principais as hidrovias e duas rodovias norte-sul, Cuiabá-Santarém e Porto Velho-Manaus-Boa
Vista-Venezuela.6
Em síntese, os Eixos Nacionais de Integração e Desenvolvimento (ENID)
cumprem três objetivos na estratégia de integração geo-econômica brasileira:
(i) a construção de um sistema integrado de logística que garanta a competitividade
dos produtos brasileiros no mercado internacional; (ii) a incorporação de novas áreas
do país à dinâmica do comércio global; e (iii) a criação das
condições para a consolidação da hegemonia política e econômica
do Brasil na América do Sul.
É nesse sentido que se pode dizer que a ENID e a IIRSA são iniciativas que se completam
e se retroalimentam e ambas compartilham de pressupostos e diretrizes semelhantes relativas á integração
econômica. Cada um dos eixos brasileiros possui uma ou mais extensões internacionais.
Outro detalhe importante e revelador do protagonismo do Brasil na IIRSA é o fato do estudo apresentado
pelo BID em dezembro de 2000 ter sido feito a pedido do governo brasileiro e ser o BNDES (Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social) um dos, senão o maior, financiador da atuação
de empresas brasileiras para a execução dos empreendimentos que interessam ao Brasil
nos países vizinhos.7
Breve mapeio dos atores e concepções
Além dos governos dos 12 países sul-americanos integrados na articulação
intergovernamental hoje denominada UNASUL, estão envolvidos diretamente na formulação
e implementação da IIRSA velhos e novos conhecidos dos setores financeiro e empresarial:
o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Corporação Andina de Fomento (CAF),
o Fundo Financeiro para o Desenvolvimento da Bacia do Rio da Prata (FONPLATA), o BNDES do Brasil e
empresas brasileiras de grande porte como a Odebrecht, a Petrobrás, a Andrade Gutiérrez,
a Queiroz Galvão, entre outras, para citar aquelas que nos são mais conhecidas no Brasil
e na região de um modo geral. Também executam obras de integração na região
a companhia Vale do Rio Doce, a General Eletric (GE) e a América Latina Logística (ALL).
Como em outros contextos, observa-se aqui uma nítida integração entre os interesses
dos governos, do setor financeiro e dessas grandes corporações na criação
de novas territorialidades.
A IIRSA se organiza tendo um Comitê de Direção Executiva de Ministros, que se
reúne uma vez ao ano; é aqui de onde emanam, idealmente, as diretrizes e prioridades
anuais e quando acontecem as reuniões presidenciais. A presidência do Comitê é exercida
em 2007 pelo Governo da República Oriental do Uruguai e as duas vice-presidências pelos
Governos do Equador e Colômbia. Desde 2001 o Instituto para la Integración de América
Latina y el Caribe (INTAL/BID), ligado ao Departamento de Integración y Programas Regionales
do BID, localizado em Buenos Aires, é sede da Secretaria do Comitê de Coordenação
Técnica (CCT) da IIRSA. Esse Comitê é formado pelo BID, a CAF e o FONPLATA, que
coincidentemente eram também as instituições financeiras promotoras da ALCA (Área
de Livre Comércio das Américas), iniciativa de integração capitaneada pelos
Estados Unidos das Américas.8
Um ator financeiro que até então vinha se mantendo a parte no processo, o Banco Mundial
(BIRD), foi acionado formalmente pelo governo brasileiro. Segundo o ministro do Planejamento, Paulo
Bernardo, por ocasião da 1ª Rodada de Consultas para a construção da chamada
Visão Estratégica Sul-Americana (VESA), realizada em Foz do Iguaçu (PR), em dezembro
de 2005, o presidente Lula teria conversado com o então presidente dessa instituição,
Paul Wolfowitz, sobre os 31 projetos prioritários da IIRSA e a importância do Banco ajudar
no financiamento dos empreendimentos.
A IIRSA também envolve outras instituições, como, por exemplo, a
Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), o Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e a Organização do Tratado da Cooperação
Amazônica (OTCA). No caso da OTCA, em 14 de setembro de 2004, na VIII Reunião de Ministros
das Relações Exteriores dos Estados-membros da OTCA, as delegações dos
países decidiram adotar o plano estratégico da Organização para 2004-2012.
Faz parte dessa estratégia o Eixo "Integração e Competitividade Regional",
que define:
"uma das prioridades de nossos governos é construir as bases para o desenvolvimento
sustentável que, em longo prazo, gere bem-estar social e aumente a participação
dos países da região na economia mundial. Por isso, a Iniciativa para a Integração
da Infra-estrutura Regional Sul-Americana considera a Amazônia de suma importância no
desenvolvimento dos processos de integração física, das comunicações
e da energia, que permitirão aproximar os mercados intra-amazônicos."
Em 25 de julho de 2005 foi assinado um convênio de assistência técnica
entre a OTCA e o BID para execução do chamado Projeto de Fortalecimento da Gestão
Regional Conjunta para Aproveitamento Sustentável da Biodiversidade Amazônica, o qual
viabilizou o lançamento, em meados de 2006, de um edital visando à realização
de estudos sobre os riscos para a biodiversidade decorrentes da construção de infra-estrutura
na Amazônia.
Há na IIRSA uma confluência de idéias e interesses articulando grupos situados
em diferentes espaços institucionais (locais, regionais, nacionais e internacionais), com diferentes
aportes à Iniciativa e ao conjunto de obras que a integra (agentes financeiros, governos, agencias
internacionais, empreiteiras, agências de consultoria as mais variadas, fornecedores de matérias
prima, sindicatos e agências de arregimentação de trabalhadores para as obras,
instituições de pesquisa e acadêmicas, etc.). Na IIRSA, como no PAC, observa-se
haver uma convergência e uma associação de diferentes perspectivas e interesses
visando promover e provocar na região sul-americana transformações sociais, políticas
e tecnológicas no sentido (i) da constituição de economias industriais de massa;
(ii) do crescimento econômico acelerado, puxado pelos setores mais dinâmicos e competitivos;
e (iii) de uma maior integração interna dos territórios nacionais, com a incorporação
de recursos naturais e populações locais num sistema produtor de mercadorias, seja para
consumo interno seja para disputas de espaço no chamado mercado internacional. Na IIRSA (como
no PAC) é dito, complementarmente, que a melhoria na qualidade de vida das populações,
particularmente da parcela identificada como a mais pobre e vulnerável, é uma
das principais prioridades.9
No discurso oficial, a IIRSA é uma oportunidade de estabelecer as bases materiais de uma nova
visão de regionalismo na América do Sul. Segundo Ariel Pares, que até maio passado
(2007) era o coordenador da IIRSA no Brasil, ela tem na noção de "regionalismo aberto" um
dos seus princípios orientadores. Mas o que significa regionalismo aberto? Diplomacia:
"Significa dizer que nós não vamos fazer um planejamento apenas tendo como referência
o planejamento administrativo, ou seja, nós queremos ter uma noção de como as
comunidades na América do Sul possam, entre elas, comerciar, integrar-se culturalmente, haver
fluxos de pessoas e capitais, haver fluxos de serviços. E, para isso, então, nós
partimos de uma visão de integração geo-econômica da América do Sul
e, portanto, não geo-administrativa em que pese, evidentemente, posteriormente, uma vez definido
aquilo que nos interessa geo-econômico e socialmente, estarmos diante da necessidade de que cada
país cumpra com aquilo que lhe coube" (Ariel Pares, na Primeira Rodada de Consultas
para a Construção da Visão Estratégica Sul-Americana no Brasil, Manaus,
12 de junho de 2006).
Ainda segundo Ariel Pares, a IIRSA não é simplesmente uma listagem de obras. Antes, é "um
conjunto de obras baseado num planejamento cuja sua ambição ... é um projeto de
desenvolvimento". Qual seria esse projeto de desenvolvimento é algo que não fica
claro. Em alguns momentos da sua fala, ilustrada com gráficos, tabelas e mapas, parece emergir
imagens que espelham visões que remontam aos anos 1970 e 1980, quando se argumentava que havia
na Amazônia um "enorme vazio" de ocupação humana e que era necessário "integrar
para não entregar". Os anos 1970 e 1980 foi um período de grandes obras de infra-estrutura
na Amazônia—como a Rodovia Transamazônica, a BR-210 (Perimetral Norte), as UHE's de Tucuruí e
Balbina e o Complexo Grande Carajás—e em outras regiões do país, como a UHE de
Itaipu, na fronteira com o Paraguai.10
Agora, anos 2000, fala-se na "rarefeita estrutura urbana dessa região", em "vazios" a
serem "urbanizados" e conectados aos "bens de serviços necessários à melhoria
da qualidade de vida" e a uma "rede de cidades mínimas que dê capacidade e acesso
a escolas, a universidades, a emprego e a renda de valor mais elevado". Como salientou Bertha
Becker na mesma ocasião:
"eu li, inclusive o que as autoridades do Itamaraty, [do Ministério] da Interação,
[do Ministério] do Planejamento, do BNDES disseram a respeito da Integração. O
que eu vejo é se a gente espreme essa leitura, é o significado, como disse o colega aí, é um
significado econômico de crescimento acelerado, de comércio externo e interno e de atração
de investimentos; é mercado, indiscutivelmente, a tônica da Integração".
A IIRSA em verdade é um espaço [ou um campo] formado por
inúmeras disputas e controvérsias que muito pouco tem a ver com os declarados benefícios
que trará aos pobres e para a erradicação da pobreza. Mas isso
não é nenhuma novidade se considerados os interesses políticos e econômicos
envolvidos e o montante de recursos financeiros circulantes no triângulo institucional formado
pelos governos, as empresas de consultoria e as empreiteiras responsáveis pelas obras. Mesmo
internamente na UNASUL há diferentes projetos de hegemonia política e ideológica
em disputa, como entre os governos brasileiro e venezuelano, entrelaçados com interesses empresariais,
com rebatimento na definição das prioridades e o controle da estratégia de integração
das infra-estruturas. Quem decide o que e como? Qual projeto deve ser priorizado? Quem financia o quê?
Que empresa ou consórcio fica com qual pedaço da carteira de projetos? Qual obra deve
receber financiamento público? Que benefícios o setor privado vai obter com determinada
obra e, após a sua conclusão, com sua entrada em funcionamento? Quem assume as mitigações
e compensações relacionadas com os impactos sociais e ambientais gerados? Esses são,
entre outros, assuntos rotineiros nesse meio.
O asfaltamento da BR 163, rodovia que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA)
parece ser um exemplo desse estado de disputas. Na página eletrônica do Ministério
do Planejamento (MPO), em junho de 2006, o asfaltamento dessa rodovia, localizada no Eixo Amazonas
da IIRSA, aparecia como um dos chamados projetos-âncora dessa iniciativa, classificação
que conflitava com a lista da página oficial da IIRSA no mesmo período, onde esse projeto
não tinha esse mesmo status.
Um meio para verificar a importância da IIRSA nas políticas públicas
do governo federal brasileiro é o orçamento do setor infra-estrutura. Outro seria a carteira
de investimentos do BNDES, via empréstimos às empresas brasileiras para que desenvolvam
projetos de infra-estrutura nos países vizinhos, mas isso, hoje, infelizmente inclusive para
nós brasileiros, é impossível, pois estes dados e informações são
guardadas a sete chaves. A política do BNDES é mais conservadora do que agências
multilaterais como Banco Mundial e BID, que têm uma série de diretrizes operacionais—sobre
meio ambiente, povos indígenas, relocalização de atingidos, etc.—e mecanismos
de acesso à informação.11
Comentários finais
Como espero tenha ficado claro no exposto até aqui, a postura protagonista do Brasil no cenário
da integração sul-americana não é de hoje nem dos últimos anos.
Ela remonta, pelo menos, ao início dos anos 1990. Nela a noção de eixos de
integração e desenvolvimento é fundante e tem acompanhado a ação
governamental desde então, seja na sua diplomacia externa e nas ações de cooperação
inter-governamental, seja no financiamento via BNDES dos chamados serviços de engenharia de
empresas estatais, mistas e privadas nos países vizinhos.
À noção de eixos associa-se outra noção complementar, a
de projeto âncora, que se refere ao projeto com poder catalítico-sinergético
para justificar a formação de um agrupamento de outros projetos no seu entorno. Exemplos
de projeto âncora no âmbito da IIRSA são a Rodovia Cuiabá-Santarém,
no Eixo Amazonas da IIRSA; e a melhoria na navegabilidade do Rio Paraguai, no Eixo Hidrovia
Paraguai-Paraná.
A chamada onda neoliberal nos anos 1980-1990 possibilitou o desenvolvimento de uma visão geo-econômica
mais aberta ao comércio internacional na região sul-americana (regionalismo aberto).
Nesse contexto, observa-se nos países e no Brasil em particular a tendência de superação
de perspectivas isolacionistas, caminhando mais decididamente na direção de políticas
territoriais explicitamente integracionistas visando à construção de uma estratégia
comum—não isenta de conflitos e de disputas por liderança e hegemonia—de inserção
ativa no acelerado processo de reestruturação global.
De um modo geral, o debate sobre a macro-estratégia de integração das infra-estruturas
nacionais e suas repercussões em termos de sustentabilidade ambiental e direitos humanos é algo
pouco analisado na profundidade necessária . Predominam visões fragmentadas e muito suscetíveis
a políticas clientelistas e assistenciais. Do nosso ponto de vista, entendemos ser necessário
estabelecer pontes (rede) entre os diferentes esforços da sociedade civil organizada
nos países visando: (i) compreender numa escala mais ampla o(s) processo(s) de integração
territorial, política e econômica em curso; (ii) realizar e mobilizar análises
críticas no Brasil e nos demais países a partir da perspectiva da sustentabilidade social,
ambiental e cultural; (iii) promover o intercâmbio de conhecimento e informações
no Brasil e entre os países sobre a gestão política e financeira dessa integração;
(iv) buscar sensibilizar os fóruns e redes existentes nos países e as articulações
transfronteiriças para que incidam de forma organizada nos espaços de decisão
sobre as políticas e projetos de integração regional e na criação
de novos espaços de governança (nacional e sul-americano) efetivamente democráticos.
Isso inclui também o recém criado Parlamento do Mercosul, instalado na cidade de Montevidéu.
Notas
- Sobre a vinculação entre projetos de grande escala
e a expansão de sistemas econômicos, ver Ribeiro (1985, 1987, 1991).
- Sobre a política territorial brasileira no contexto da
integração sul-americana nos anos 1990 ver Becker (1999), Costa (1999).
- Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador,
Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela.
- O documento da I Reunião de Chefes de Estado da Comunidade
Sul-Americana de Nações está disponível na página da FLACSO/Brasil: http://www.flacso.org.br/data/biblioteca/422.pdf.
- Para maiores detalhes sobre a pré-história da
atual estratégia de integração regional sul-americana ver Silva (1997) e Carvalho
(2004, 2006a, 2006b).
- Ver Cardoso (1998: 80-117); Théry (2005).
- O documento apresentado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento
denomina-se Un Nuevo Impulso a la Integración de la Infraestructura Regional en América
del Sur que, entre outras coisas, aponta os fatores inibidores da dinamização do
comércio entre os países e aponta alternativas.
- O endereço oficial da IIRSA na internet é www.iirsa.org.
- Alselm Jappe em seu livro As Aventuras da Mercadoria (2006)
realiza uma importante análise crítica das bases fundantes da sociedade capitalista,
a lógica da mercadoria, e das perspectivas teóricas e práticas que se limita a
criticar o neoliberalismo.
- "A construção das represas de Curua-Uma,
Balbina, Samuel e Tucuruí na Amazônia resultou em grandes alterações ambientais
a montante e a jusante, comprometendo os ecossistemas locais e regionais e gerando efeitos indiretos
inclusive na saúde humana de difícil controle", afirma Tundisi (2007). Para a Amazônia,
ver Davis (1978), Becker (1982, 1990), Leonel (1992), A rnt e Schwartzman (1992).
- Ver: http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2007/08/08/materia.2007-08-08.2630670700/view
Ricardo Verdum (verdum(a)inesc.org.br) é Doutor em Antropologia da América Latina e
Caribe pelo Centro de Pesquisa e Pós-Graduação sobre as Américas (CEPPAC)
da Universidade de Brasília (UnB), assessor sênior de políticas indígena
e socioambiental do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) é analista pelo Programa das Américas em www.ircamericas.org.