Está na PNAD (Pesquina Nacional por Amostra de Domicílio) a explicação
para a popularidade do presidente, que intriga mídia, direita e parte da esquerda. Brasil
tornou-se menos desigual, em múltiplos sentidos. Chamar os avanços alcançados de "assistencialismo" não
ajuda a entender a realidade, nem a reivindicar mudanças mais profundas.
É tempo de fazer as contas. Com a deformação geral dos dados pelo prisma ideológico
da grande mídia, torna-se necessário buscar nas fontes primárias de informação,
nos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estadística)1,
como andam as coisas. A reeleição mostrou forte aprovação por parte dos segmentos
mais pobres do país a Lula, mas os números reais sobre a evolução das condições
de vida do brasileiro surgem com o atraso natural dos processo de elaboração de pesquisas.
O IBGE publicou a PNAD de 2006, e também o Indicadores Sociais dos últimos 10 Anos. Vale
a pena olhar a imagem que emerge: ela explica não só os votos, como o caminho que temos
pela frente.
O principal número é, evidentemente, o aumento de 8,7 milhões de postos de trabalho
no país durante o último governo. Isto representa um imenso avanço, pois se trata
aqui de uma das principais raízes da desigualdade: grande parte dos brasileiros se vê excluída
do direito de contribuir para a própria sobrevivência e para o desenvolvimento em geral.
Entre 2005 e 2006 o avanço foi particularmente forte, com um aumento de 2,4%, resultado da entrada
no mercado de trabalho de 2,1 milhões de pessoas. A expansão do emprego feminino é particularmente
forte (3,3,%), enquanto o dos homens atingiu 1,8%. A formalização do emprego é muito
significativa: 3 em cada 5 empregos criados são com carteira assinada. Atingimos assim, em 2006,
30,1 milhões de trabalhadores com carteira assinada, um aumento de 4,7% em um ano. O avanço é pois
muito positivo, mas num quadro de herança dramático, que o próprio IBGE aponta: "mais
da metade da população ocupada (49,1 milhões de pessoas) continuava formada por
trabalhadores sem carteira assinada, por conta-própria ou sem remuneração.
O segundo número, que ocupou as manchetes de todos os jornais, é a elevação
dos rendimentos dos trabalhadores em 7,2%, entre 2005 e 2006. É um número extremamente
forte, e coerente com os anos anteriores: a remuneração dos trabalhadores vinha caindo
desde o final dos anos 1990, e começou a se elevar em 2003, desenhando desde então uma
curva ascendente. Este é um número de grande importância, pois a desigualdade é,
de longe, o nosso problema número um. É um número que reflete os avanços
na criação de postos de trabalho vistos acima, e também os avanços no salário
mínimo.
O salário mínimo teve um ganho real de 13,3% em 2006 relativamente a 2005, o que representa
um salto fortíssimo para os trabalhadores que estão no que se chama hoje de "base
da pirâmide" econômica. Consultas com pessoas que trabalham com as estatísticas
da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) do Dieese/Seade sugerem que 26 milhões de trabalhadores
foram abrangidos por este aumento. Além disto, como o salário mínimo é referência
para o reajuste das aposentadorias, outras 16 milhões de pessoas teriam sido beneficiadas.
Aumento consistente nos salários e avanços no combate à desigualdade—inclusive
entre as regiões
Um comentário é necessário aqui: um aumento de cem reais para uma família
que tem um rendimento de, por exemplo, 4 mil reais não é significativo. No entanto, cem
reais representam, para pessoas que têm de sobreviver com algumas centenas de reais por mês,
um imenso alívio, a diferença entre poder ou não poder comprar melhor alimento ou
um medicamento para a criança. A utilidade marginal da renda, em termos de impacto para o conforto
das famílias, vai diminuindo conforme a renda aumenta. Do ponto de vista econômico, maximizar
a utilidade dos recursos do país envolve o aumento da renda dos mais pobres. Isto vale tanto no
aspecto social, em termos de satisfação gerada, como em termos de geração
de demanda e conseqüente dinamização das atividades econômicas. O pobre não
faz especulação financeira, compra bens e serviços. Tirar as pessoas da pobreza
não é caridade, é bom senso social, e bom senso econômico.
Outra forma de a PNAD avaliar a evolução dos rendimentos já não é por
trabalhador, na fonte de remuneração, e sim por domícilio, no ponto de chegada.
Isso permite agregar as várias formas de remuneração na família. O rendimento
médio domiciliar aumentou em 5,0% em 2005, e em 7,6% em 2006, o que é coerente com os dados
de rendimento de trabalho, e torna os dados muito confiáveis, porque convergem. É bom lembrar,
para quem tem menos familiaridade com este tipo de números, que um aumento de 7% ao ano significa
que o rendimento dobra a cada 10 anos.
Detalhando as cifras acima, vemos outras coisas interessantes. O rendimento no trabalho das pessoas
ocupadas, que na média nacional cresceu 7,2%, subiu 6,6% no Sudeste, mas avançou 12,1%
no Nordeste. No caso do rendimento dos domicílios, o aumento médio nacional, conforme vimos,
foi de 7,6%. Mas no Sul e no Sudeste, foi de 7%, enquanto no Nordeste foi de 11,7%. Ou seja, não
só tivemos um forte avanço do conjunto, como a região mais atrasada, cujo avanço é mais
importante para o reequilibramento nacional, teve o avanço mais acelerado. Em outros termos, a
desigualdade regional está, pela primeira vez, sendo corrigida, e com números muito significativos.
Relevantes, sem dúvida, mas ainda muito insuficientes: O rendimento médio domiciliar nordestino
representava, em 2005, 52,8% do rendimento do Sudeste, passando para 57,8% em 2006. Um grande avanço,
mas um imenso caminho pela frente.
Outro eixo importante de desigualdade está ligado à diferença de nível
de remuneração entre o homem e a mulher. Os dados mostram a evolução seguinte:
a remuneração da mulher, que equivalia a 58,7% da do homem, em 1996, pulou para 63,5% em
2004; 64,4% em 2005 e 65,6% em 2006. Nota-se uma lenta progressão, partindo de um nível
que já é em si extremamente desigual. Ou seja, aqui também a direção é positiva,
mas precisamos de muito mais.
Mulher é quase 50% da força de trabalho e estuda mais—porém, arca com afazeres
domésticos
A situação da mulher é particularmente afetada pela desagregação
da família. Estas cifras extremamente duras aparecem no documento do IBGE sobre Indicadores Sociais
1996-2006. O número de famílias caracterizadas como "mulher sem cônjuge com
filhos" passou de 15,8 milhões em 1996 para 18,1 milhões, em 2006. Como há um
pouco menos de 60 milhões de famílias no país, isto significa que quase um terço
das famílias são carregadas pelas mães—que se não trabalham, não têm
renda, e se trabalham, não têm como cuidar os filhos. Trata-se aqui evidentemente de uma
situação dramática quando associada à pobreza, e constitui um alvo central
do programa Bolsa-Família, cujo sucesso se deve em grande parte também ao fato de as mulheres
gerirem melhor os recursos obtidos. Aos que criticam os programas redistributivos, é bom lembrar
um outro dado da PNAD, apontando que "cerca de 31% das famílias em que a mulher era a pessoa
de referência viviam com rendimento mensal até meio salário mínimo per capita."2 Do
lado positivo, é importante o dado que a PNAD nos traz, de que as mulheres estão progredindo
rapidamente em termos de nível de estudos: 43,5% delas concluíram o ensino médio
(11 anos ou mais de estudos), enquanto apenas um terço dos homens possuía este grau de
instrução. As mulheres investem mais também no estudo superior, onde 55,3% eram
mulheres em 1996, e 57,5% em 2006. Numa sociedade onde o conteúdo de conhecimentos nos processos
produtivos se eleva rapidamente, isto é fortemente promissor.
A presença feminina na força de trabalho continua crescendo: são 43 milhões,
num total de cerca de 90 milhões de pessoas ocupadas. No entanto, entre trabalho, estudo e cuidados
com a família, além de estar freqüentemente sozinhas na chefia da família,
a sobrecarga está evidentemente no limite do suportável. A Síntese de Indicadores
Sociais 1996-2006 comenta que "com relação à jornada média semanal despendida
em fazeres domésticos, verifica-se que as mulheres trabalham mais que o dobro dos homens nessas
atividades (24,8 horas)."
Ou seja, nesta outra dimensão tão importante da desigualdade, a que se materializa na
desigualdade de gênero, constatamos avanços na remuneração relativa, avanços
nos estudos, avanços na força de trabalho, mas tudo ainda enormemente injusto para uma
visão de conjunto que temos caracterizado, em outros trabalhos, de "reprodução
social" no sentido amplo. Os desequilíbrios estruturais herdados são simplesmente
muito grandes.
Educação: um mundo à parte, marcado pelo avanço nos anos de estudo e
por ... analfabetismo alarmante
Outra dimensão que vale a pena comentar é que tanto a PNAD 2006 como a Síntese
de Indicadores Sociais 1996-2006 documentam amplamente, são os avanços no nível
da educação. Para já, é um mundo: no Brasil, são 55 milhões
de estudantes, 43,7 milhões na rede pública, e 11,2 milhões na rede privada. Se
incluirmos professores e sistema de apoio administrativo, temos aqui quase um terço da população
do país. A expansão quantitativa maior deu-se na gestão anterior à do presidente
Lula, mas os avanços continuam fortes.
Em particular, com a lei 11.274 de 6 de fevereiro de 2006, o ensino fundamental expande-se para 9
anos, com início aos 6 anos de idade. A taxa de escolarização no grupo de 5 e 6
anos aumentou em 3% em um ano. O número dos que não freqüentavam a escola nesta idade
caiu de 35,8% em 1996, para 23,8% em 2001, e para 14,7% em 2006. Na classe de 7 a 14 anos, a queda dos
que não freqüentavam a escola foi de 8,7% para 3,5% e 2,3% respectivamente. Para a classe
de 15 e 17 anos, foi de 30,5%, 18,9% e 17,5% respectivamente. O número médio de anos de
estudo completos das pessoas de 10 anos ou mais de idade foi de 6,8 anos em 2006, um aumento de 3% relativamente
ao ano anterior.
No ensino superior, houve um aumento muito forte, de 13,2%, entre 2005 e 2006. Ele deve-se dominantemente à expansão
do ensino superior privado, e o papel público de redução das desigualdades aparece
claramente na distribuição entre os dois sistemas: "Enquanto nas Regiões Norte
e Nordeste 41,9% e 36,6% dos estudantes de nível superior freqüentavam a rede pública,
nas Regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, estes percentuais eram de 18,2%, 22,1% e 26,5%, respectivamente".3
Aqui ainda, a direção é correta, mas o atraso a recuperar é imenso. Ao
analisar a escolaridade da população ocupada, a PNAD constata que as pessoas com 11 anos
ou mais de estudo, eram apenas 22,0% em 1996, 28,9% em 2001 e 38,1% em 2006. A progressão é forte,
e se deve particularmente ao esforço educacional das mulheres ocupadas, entre as quais 44,2% tinham
escolaridade de 11 anos ou mais, em 2006. Na outra ponta, temos 15 milhões de analfabetos de mais
de 10 anos (redução de 10,2% para 9,6%). O analfabetismo funcional atingia 23,6% das pessoas
com mais de 10 anos (redução de 1,3% ponto percentual), sendo que no Nordeste atingia 35,5%.
Evidentemente, está entre as duas pontas a imensa massa dos sub-qualificados do país.
Um caminho: reivindicar a ampliação das políticas sociais—ao invés de
tentar desmoralizá-las
Se resumirmos um pouco a evolução, constatamos uma forte expansão do emprego
(particularmente do emprego formal), um aumento da renda do trabalho em geral (e em particular no Nordeste),
uma progressão significativa da escolaridade e da remuneração feminina, um forte
aumento da população ocupada com 11 ou mais anos de estudo, além da redução
do trabalho infantil e outras tendências que não temos espaço para comentar aqui.
Estes números são coerentes entre si e convergem para uma conclusão evidente: está se
fazendo muito, os resultados estão aparecendo.
A apresentação destas políticas como "assistencialistas" não
tem muito sentido: os 12,5 bilhões de reais para a agricultura familiar constituem um apoio à capacidade
produtiva. Os R$8,5 bilhões do Bolsa-Família constituem um excelente investimento na próxima
geração que será melhor alimentada—além do impacto essencial de inserção
deste nosso quarto-mundo nas políticas públicas organizadas do país. O aumento do
salário mínimo, junto com os outros programas mencionados, começa a dinamizar a
demanda popular e a estimular pequenas atividades produtivas locais.4
Ou seja, estaremos talvez atingindo um limiar a partir do qual a renda gerada na base da sociedade
começa a se transformar num mecanismo auto-propulsor. Para isto, teremos de avançar muito
mais. O que está em jogo aqui não é apenas ajudar a massa de excluídos deste
país. É gerar uma dinâmica em que renda, educação, apoio tecnológico,
crédito e outras iniciativas organizadas de apoio permitam realmente romper as estruturas que
geraram e reproduzem a desigualdade. A pressão sobre este governo é positiva, quando se
leva em consideração os avanços realizados, e se reivindica a ampliação
das políticas, não a sua desmoralização.5
O que se torna evidente, ao analisarmos estes dados, é que a população mais desfavorecida
do país votou no segundo turno não por desinformação, mas por sentir que
a sua situação está melhorando. Falar mal do governo, entre nós, é quase
um reflexo, acompanha a cerveja como o amendoim. Falar bem dele parece até suspeito, como se fosse
menos "objetivo". Mas falar mal pode ser igualmente suspeito. Muito mais importante é entender
o que está acontecendo. Por trás do palco da política oficial que a imprensa nos
apresenta a cada dia, e que é o lado mais visível dos grandes discursos, há o imenso
trabalho organizado de milhares de pessoas que estão tocando progamas, literalmente tirando leite
de pedra numa máquina de governo que, por herança histórica, foi estruturada para
administrar privilégios, e não para prestar serviços.
Notas
- A Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio, para quem
não está familiarizado, constitui o principal instrumento de avaliação de
como anda a situação das familias no país. A PNAD 2006 entrevistou 410.241 pessoas,
em 145.547 domicílios, e representa a situação real de maneira confiável,
ainda que desagregável apenas ao nível de Grandes Regiões ou de Estados, o que encobre
desigualdades locais, perdidas nas médias. Os dados estão disponíveis online, nos "Comentários
2006".
- Ver os dados na Sintese de Indicadores Sociais 1996-2006 do
IBGE, gráfico 4.1, e páginas seguintes, doc. s.p. O documento completo é Síntese
de Indicadores Sociais 2007. Uma análise das condições de vida da população
brasileira 2007 está disponível aqui.
Sobre as tendências de desagregação da família, ver o nosso artigo "Economia
da Família", sob a rubrica Artigos Online no site www.dowbor.org.
- IBGE, PNAD 2006, Comentários, p. 7.
- Vale a pena consultar o sistema de seguimento dos 149 programas
sociais distribuídos entre vários ministérios, disponível sob "Geração
de Emprego e Renda", em www.mds.gov.br: cada programa é apresentado
com os seus objetivos e custos, além de contato para quem precisar de mais informação.
- Para o conjunto de propostas relativas á dinamização
do "andar de baixo" da economia, ver Política Nacional de Apoio ao Desenvolvimento Local, www.dowbor.org sob
Artigos Online.
Ladislau Dowbor é professor titular no departamento de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Este artigo foi publicado por Le Monde Diplomatique.