Programa de las Américas del CIP - Un nuevo mundo de acción ciudadana, análisis, y alternativas políticas
Programa de las Américas | Boletín Americas
Programa de las Américas Ação da cidadania nas

Rádio Atipiri

Por Laura Carlsen | 24 de junho de 2009

Versão Original: Radio Atipiri
Traduzido por: Lívia Cavallini Dias

Enviar

Retroalimentación

Programa de las Américas

A estrada de La Paz em direção a El Alto surge em uma série de curvas que atravessam um barranco vermelho. Não pode ser de outra forma—o declive da montanha é quase vertical, deixando para trás a cidade colonial para chegar repentinamente no Altiplano Boliviano, mais de 4.000 metros acima do nível do mar.

Foto: elaltonoticias.blogspot.com.

O vento é vigoroso nessa terra plana e sem árvores. Nos mercados, vendedoras vestidas com saias tradicionais trabalham nas milhares de barracas ao longo da estrada e protegem a sua mercadoria de rajadas incontroláveis. Ônibus transportam pessoas para todos os cantos durante todo o dia.

Essa é El Alto, uma cidade legalmente e economicamente parte da capital boliviana, mas completamente removida em suas origens, culturas e traços sócio-econômicos. É uma colônia construída pelos seus habitantes, migrantes indígenas do interior, mineiros e trabalhadores da cidade. Enquanto em 1950 tinha uma população de 11.000, hoje o número aproxima-se de um milhão.

Mais de 80% da população de El Alto são indígenas, principalmente a etnia Aymara. Segundo o censo de 2001, 70% dos habitantes são "pobres, com necessidades básicas insatisfeitas", e centenas vivem na extrema pobreza. Em muitas casas, falta uma ou mais utilidades básicas: água e esgoto encanados, água potável, eletricidade, etc. As ruas da cidade em expansão são feitas de terra, à exceção apenas das principais avenidas e de algumas outras ruas. A maioria dos cidadãos de El Alto trabalha no setor informal.

A sociedade de El Alto tem sido estudada continuamente devido ao seu alto grau de auto-organização, auto-gerenciamento e auto-governo. Desde as primeiras migrações em massa, os habitantes organizaram-se para lidarem com a falta de serviços e outros problemas diários, construindo e transformando a sua sociedade. A criação de novas formas de organização, particularmente nos comitês de bairros (juntas vecinales), é agora parte da cultura e da identidade de El Alto.

A falta de transporte, emprego, serviços, educação e sistema de saúde afeta a todos, mas o impacto direto tende a ser maior nas mulheres. Junto ao desafio diário de simplesmente sobreviver, as mulheres são excluídas de muitos espaços culturais, sociais e políticos; historicamente, elas foram ensinadas a permanecerem em silêncio frente a uma infinidade de injustiças.

Nesse contexto, falar sobre o direito à comunicação torna-se uma necessidade fundamental. A comunicação—diferente, autônoma, auto-direcionada—é um tema central nessa sociedade que sabe como lutar pelos seus direitos. Através dos seus projetos de comunicação, os habitantes de El Alto se reúnem, discutem futuros, contemplam, celebram e forjam identidades compartilhadas. Para as mulheres, o processo lhes dá habilidades, e em muitos casos, abrem as mesmas para transformações pessoais.

"Eu sempre te escutei, agora é a sua vez de me escutar"

A Rádio Atipiri nasceu em 2006 em Urbanización Atipiris, uma zona periférica da vasta cidade de El Alto. Teve início com duas caixas de som conectadas a uma antena de 30 metros, projetando a partir da própria estação. Com anúncios de voz direta, a estação começou a sua longa e árdua jornada em sua comunidade local e na área do Altiplano.

A Rádio Atipiri é um projeto do Centro de Educação e Comunicação para Comunidades e Povos Indígenas (CECOPI), uma organização formada em 1997 que começou a focar em estratégias de comunicação desde 2003. Agora conta com um transmissor de rádio de três kilowatts, transmitindo pela 840 AM de segunda a sábado. O seu sinal alcança o departamento de La Paz e até mesmo a região sudoeste do departamento de Oruro. O CECOPI, através da Rádio Atipiri, coordena uma ampla gama de oficinas de capacitação e atividades, e conseguiu estabelecer-se em um edifício próprio, onde tem seus próprios equipamentos de transmissão e produção, bem como escritórios e salas para reuniões e oficinas.

Os principais desafios

  • O projeto não tem recursos suficientes para produzir todos os programas que gostaria.
  • A pobreza da comunidade é um obstáculo para a participação dos seus membros.
  • A maioria das mulheres da região fala apenas a sua língua materna (não falam espanhol), e o colonialismo e o controle da mídia as excluem.
  • As mulheres não estão acostumadas a falar em público.
  • Os níveis de educação formal e alfabetização entre as mulheres de El Alto e das comunidades do Altipano são baixos.

"A estação é uma mistura de informações, música, vozes diferentes, tudo traduzido em uma produção permanente de rádio que recupera a memória oral da cultura Aymara, em pacotes educacionais de histórias, miniprogramas, mensagens educacionais, etc," diz Tânia Ayma, autal diretora do CECOPI e da Rádio Atipiri. "A sua programação é tão variada quanto as pessoas que vêm para compartilhar as suas vozes e habilidades. A Rádio Atipiri afirma ser o que é a comunidade Altiplano: diversa e bilíngue."

Isso é o que distingue a Rádio Atipiri das outras estações—as vozes das comunidades e dos subúrbios que constituem a equipe de produtores, e o material transmitido. Seu objetivo é democratizar a comunicação, e como conseqüência funciona de forma bem diferente da mídia comercial, que sempre excluíram as vozes e as mensagens das comunidades indígenas.

"Existem outras estações de rádio aqui, que, embora tenham uma transmissão poderosa e até mesmo anos de história no campo do rádio, ainda são parciais em suas polílicas. Elas não permitem que se falem línguas nativas, como o Quéchua e o Aymara, nos seus espaços participativos, já que não as entendem muito bem." Em contraste, na Rádio Atipiri as pessoas falam a língua que querem: Aymara, Quechua. "As crianças vêm e falam. Os avós vêm e falam."

Desde o seu lançamento, a Rádio Atipiri trabalhou para promover a participação democrática e equidade de gêneros. Os fundadores, homens e mulheres, têm um compromisso claro em dar voz àqueles que têm menor representação e recebem menos serviços dos meios de comunicação convencionais—as mulheres indígenas do Altiplano Boliviano. Em 2003, a estação iniciou oficinas de capacitação para "repórteres populares femininas", e até o momento eles treinaram uma média de 200 mulheres por ano. As repórteres aprendem a entrevistar os seus vizinhos, a escrever e editar artigos, a usar os equipamentos de transmissão e a transmitir programas no ar. Quando as mulheres pegam o microfone, elas aprendem a levantar a voz e a transmitir a sua própria realidade.

Em uma oficina de quatro meses de duração, as mulheres aprenderam a gravar a voz das suas comunidades—suas reclamações, demandas e anseios. Em geral, elas não têm gravadores de fita ou qualquer outro tipo de equipamento. Elas simplesmente trazem a informação diretamente à estação em que é transmitida, ou transmitem as suas reportagens por telefone. As oficinas têm um feito multiplicador, resultando no crescimento contínuo dos programas. "A necessidade e a demanda das mulheres por treinamento é sentida por outras mulheres que vivem na mesma situação."

"A tarefa não é apenas informativa. Ao coletar informações, as mulheres repórteres gravam as demandas mais urgentes das pessoas e de outras mulheres. São demandas e necessidades que encontrariam dificuldades em conseguir acesso à esfera pública," explica Ayma. "Elas vêm de regiões marginalizadas e dos setores da população que foram silenciados pelo sistema neocolonial que reinava na Bolívia, desprezadas por sua língua e cultura."

Site de transmissão da Rádio Atipiri.
Foto: elaltonoticias.blogspot.com.

Ayma relata a história de uma repórter que viaja nas regiões mais distantes da cidade, onde não existe transporte público. "Ela vai a pé, gravando as demandas e necessidades das pessoas que nunca pensariam que as suas vozes seriam ouvidas." Mais do que simplesmente divulgar, esse tipo de notícia permite à comunidade estabelecer conexões com organizações que podem canalizar as suas demandas, como a Federação de Comitês de Vizinhança (Juntas Vecinales), entre outras.

O projeto procura reivindicar o direito à comunicação e promover as vozes das mulheres na esfera pública. Os participantes recebem ferramentas não somente para enfrentar a difícil situação em que vivem, mas para superá-la e abrir novos espaços para si próprios. Quando foi perguntado se as mulheres da estação fazem parte de organizações mistas, como os comitês de vizinhança, Ayma respondeu, "É claro, mas elas não participam. Agora, elas estão recebendo a chance de participar." Nos projetos do CECOPI e da Rádio Atipiri, as mulheres são as protagonistas e as organizadoras. Nos seus próprios espaços, elas aprendem a perderem o medo, a levantarem as suas vozes, e a gravarem as vozes de outras mulheres que vivem em situação similar. Dessa forma, o papel subordinado das mulheres nos seus cotidianos—e até mesmo nas suas organizações locais—começa a ser rompido.

A metodologia das oficinas é baseada na tradição oral, utiliza figuras em vez da palavra escrita, e é guiada por testemunhos e experiências pessoais. Os idosos da região participam em programas que promovem a recuperação da memória oral das pessoas; jovens fazem programas de hip-hop ou rap em Aymara; mulheres escrevem novelas, ou atuam com diálogos que compartilham as suas experiências em saúde sexual e reprodutiva, relações de gêneros e violência.

Além do programa de rádio, o CECOPI/projeto Atipiri começou a incidir na produção de documentários em vídeo. Eles produziram quase 50 filmes sobre tópicos escolhidos pelas pessoas nas comunidades e subúrbios participantes. Eles também conduzem pesquisas sobre a situação vivida pelos habitantes da região, e trabalham na sistematização das suas próprias experiências organizacionais para documentar e analisar a trajetória dos seus projetos.

Um dos principais desafios enfrentados pelo projeto é a falta de financiamento. Para lidar com isso, a Rádio Atipiri tem buscado a cooperação internacional com grupos de comunicadores em outras partes do mundo.

A Rádio Atipiri não impõe uma cultura dominante de cima pra baixo, como faz a mídia elitista que Ayma critica. Ela grava, alimenta, e transmite a cultura de baixo pra cima, a diversa, vibrante e dinâmica cultura de El Alto. A complexa mistura de antigas tradições e cultura moderna de rua é refletida nas vozes de jovens e idosos.

Um bom exemplo é encontrado nos vídeos de hip-hop feitos pela juventude da Rádio Atipiri. Quando as famílias migraram para El Alto, os jovens cresceram entre a sua herança e as suas necessidades diárias, entre a discriminação e "o orgulho de serem Aymara, de El Alto, e, acima de tudo, bolivianos."

"Nós, as Mulheres de El Alto, somos donas dos nossos corpos
e falamos com as nossas próprias vozes."
Foto: elaltonoticias.blogspot.com.

"O hio-hop vem dos Estados Unidos. Em El Alto, ele é reelaborado, com o mesmo ritmo, mas as letras são sobre protestos, sobre o compartilhamento das suas vidas, sobre a sua cultura. O hip-hop é um ritmo, um estilo que se copia, mas isso é hip-hop em Aymara. A música reflete essas contradições culturais, mas em uma forte expressão da sua própria identidade," aponta Ayma. "E, bem, isso é o que El Alto realmente é—toda essa mistura."

Um projeto integral, em que se pode refletir e ver-se refletido

"A teoria da produção radiofônica está relacionada à nossa teoria de criação de documentários audiovisuais. Quando as pessoas vêem as nossas produções, elas se vêem refletidas e dizem 'sim, está certo'."

Na Rádio Atipiri, todos fazem um pouco de todo o trabalho a ser feito. O câmera é também motorista, mensageiro, e—quando preciso—vigia os filhos de outros participantes como parte da lógica de trabalho coletivo.

Para as pessoas da estação, o projeto de comunicação não pode ser separado da sua necessidade de ganhar dinheiro e apoiarem uns aos outros. Sem o luxo de poder oferecer salários às repórteres e aos outros participantes, a Rádio iniciou oficinas produtivas como uma parte integral do projeto.

Conquistas

  1. Tem-se obtido sucesso na consolidação do seu projeto radiofônico com as suas próprias instalações e equipamentos, bem como na garantia de programação contínua tendo como alvo as necessidades da comunidade. Essa consolidação não seria possível sem o apoio crucial do governo de Andalucía, que, através da coordenação com a EMA RTV, tem apoiado consistentemente as iniciativas do CECOPI e dos espaços participativos do grupo Aymara.
  2. Tem-se desenvolvido conteúdos bilíngues para promover a inclusão, a participação e a cultura do seu público.
  3. Tem-se treinado mais de mil mulheres em campos diferentes, desde o técnico até aspectos de comunicação radiofônica e audiovisual, em El Alto e comunidades ruraus de Altiplano.
  4. Tem-se produzido mais de 50 vídeos de documentários, alguns dos quais têm sido exibidos no Canal 7 de Televisão boliviana.
  5. Tem programas para crianças, jovens e idosos.

Conexões globais e locais

A Rádio Atipiri está sempre lutando para manter o projeto funcionando apesar da falta de recursos. Para lidar com essa situação, formou alianças em todo o mundo com grupos de comunicadores e defensores do direito de comunicação.

Um grupo que tem sido essencial para o projeto Atipiri é a Associação de Emissoras Municipais e Comunitárias de Rádio e TV de Andalucía (EMA-RTV). O CECOPI, junto com a EMA RTV, inscrevem-se todo ano para receber financiamento do governo de Andalucía, para ter acesso a projetos de desenvolvimento que já proporcionaram previamente coisas como equipamento de transmissão. A EMA RTV também participou como parceira no treinamento de pessoal, bem como proporcionando equipamento de transmissão e outras contribuições necessárias para o trabalho contínuo da estação.

Outra organização que proporcionou fundos e treinamento para o projeto El Alto é a PCI-Media Impact, localizada em Nova Iorque. A colaboração começou em 2007, com o financiamento de bolsas de estudo que resultaram na produção de novelas. A novela é uma forma atraente de contar histórias baseadas em testemunhos e experiências das pessoas. Uma novela feita para jovens é chamada As Cores da Vida e trata de questões de saúde sexual e reprodutiva. Uma outra, feita para mulheres, é intitulada Em Nome da Mulher, com 20 episódios que falam sobre direitos sexuais, particularmente o direito de escolher quantos filhos ter. O lema é "as mulheres de El Alto somos donas dos nossos corpos e falamos com as nossas próprias vozes." A terceira novela com a PCI-Media Impact está em produção atualmente. Pelo título Procurando Amor, ela é para adolescentes no Distrito 8 de El Alto e é sobre saúde sexual e jovens.

O CECOPI também trabalha com a Associação Mundial de Comunicação Cristã (World Association for Christian Communication, WACC), uma instituição cujo apoio lhe permitiu a ingressar em zonas rurais, treinando repórteres populares nos municípios de Santiago de Callapa e Tiwanacu, bem como em El Alto mesmo.

Mais do que relacionamentos baseados na solidariedade do Primeiro Mundo, a Rádio Atipiri construiu relacionamentos globais baseados em trabalho colaborativo, compartilhando valores e o compromisso para o direito de todos à comunicação como um instrumento na luta.

Nos seus mais de cinco anos de operação em El Ato, o projeto conquistou bastante com pouquíssimos recursos. Mas os desafios continuam, e a rádio deve sobreviver diariamente. É o compromisso da equipe, e todo o trabalho individual no que eles consideram ser o "seu" projeto, o que garante que essa mídia transmite, diariamente, a sua realidade para a região e para o mundo , entrelaçando os sonhos e as demandas dos povos indígenas em uma voz de muitas vozes.

Laura Carlsen (lcarlsen@ciponline.org) é a Diretora do Programa das Américas (www.americaspolicy.org) do Center for International Policy na Cidade do México.

O CIP Programa das Américas agradece à Associação Mundial de Comunicação Cristã (World Association of Christian Communication, WACC) pelo apoio a essa série de Perfis de Ação Cidadã sobre o direito de comunicação.

 

Recursos

Rádio Ñomndaa, A Palavra da Água
http://www.ircamericas.org/port/6179

Mídia Comunitária Argentina Luta Por Acesso e Reforma Legal
http://www.ircamericas.org/port/6165

Grupos de Cidadãos Organizam-se Para Acabar Com a "Censura Branda" e Garantir a Liberdade de Expressão
http://www.ircamericas.org/port/6143

Rádios Indígenas Comunitárias no México
http://www.ircamericas.org/port/6146

Comunicação Indígena em um Mundo Globalizado: Estratégias Utilizadas pela FIOB nos Estados Unidos e México
http://www.ircamericas.org/port/6144

Jornalistas Ambientais Mexicanos Melhoram a Cobertura
http://www.ircamericas.org/port/6145

Referencias

CECOPI e Rádio Atipiri
Av. Grigotá #1514, Urbanización Atipiris, Distrito 8, Ciudad de El Alto
Telefone: +591 2 288 2066
Fax: +591 2 288 1899
PO Box: 13053
ccecopi@yahoo.com
radioatipiri@bolivia.com
taniaayma@yahoo.com

Associação Mundial de Comunicação Cristã (World Association for Christian Communication, WACC)
http://www.waccglobal.org/en.html

Associação de Emissoras Municipais e Comunitárias de Rádio e TV de Andalucía (EMA-RTV)
www.emartv.com

PCI-Media Impact
http://www.population.org/


Sign up for Americas Program Mailings (suscribirse)


Publicado por el Programa de las Américas. Todos os direitos reservados.

Citação recomendada:
Laura Carlsen, "Rádio Atipiri," Programa das Américas Ação da cidadania nas (Washington, DC: Center for International Policy, 24 de junho de 2009).

Posição no Internet:
http://ircamericas.org/port/6213

Informação da Produção:
Chellee Chase-Saiz

Commentario
Nota do editor:
todos os comentários são conferidos pelos editores do CIP, que checam seus conteúdos e, em menor grau, erros ortográficos ou gramaticais. Comentários com linguagem vulgar ou conteúdo difamatório são rejeitados. Também são descartados comentários sem relação direta com o artigo publicado pelo CIP.
 
Usted puede agregar un nuevo comentario aquí. No aparecerá en esta página hasta que ha sido aprobado por el asesor.
Nombre y apellido:
Use este renglón par darnos sus comentarios:
 
 
1717 Massachussets Ave NW Suite 801, Washington DC 20036 | americas@ciponline.org | (202) 536 2649 | www.americaspolicy.org

Copyright © 2010. All rights reserved.